Enquanto o Brasil se prepara para a temporada de prêmios internacionais, O Agente Secreto — o filme brasileiro que representa o país nos Oscars 2026 — está conquistando os corações de Hollywood. Dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura, o thriller político ambientado em Recife em 1977 não é apenas um sucesso de crítica: é uma máquina de prêmios. Desde sua estreia em Cannes, acumulou mais de 20 reconhecimentos internacionais, incluindo Melhor Diretor e Melhor Ator no festival francês — e agora, em novembro de 2025, está na mira dos grandes prêmios norte-americanos.
De Cannes a Hollywood: a trajetória inédita de um filme brasileiro
Em maio, quando O Agente Secreto venceu o prêmio FIPRESCI e o prêmio Art et Essai em Cannes, poucos acreditavam que um filme em português, com orçamento modesto e enredo profundamente brasileiro, poderia chegar tão longe. Mas o que parecia um gesto de reconhecimento da crítica se transformou em um movimento de massa. Wagner Moura, que interpreta Marcelo, um professor que volta a Recife para fugir de um passado sombrio, não apenas encarnou o personagem — ele o respirou. Sua atuação, silenciosa e carregada de tensão, foi comparada às de Robert De Niro em seus papéis mais introspectivos. E o diretor Kleber Mendonça Filho, já consagrado por Neighboring Sounds e Aquarius, provou que sabe construir suspense sem precisar de efeitos especiais — apenas de som, silêncio e história.
Na noite de domingo, 17 de novembro, os dois estiveram na Governors Awards, em Hollywood, evento organizado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Não foi uma cerimônia de premiação, mas um encontro estratégico: a chance de apresentar o filme a membros da academia que votam nos Oscars. Eles não foram como turistas. Foram como embaixadores de uma nova geração do cinema brasileiro — um cinema que não pede permissão, apenas exige atenção.
A campanha silenciosa que está mudando o jogo
Na quarta-feira, 19 de novembro, O Agente Secreto foi liberado nas plataformas de votação dos Critics Choice Awards e dos Golden Globes. Dois dias depois, na quinta-feira, 20, a equipe participou de reuniões exclusivas com jornalistas e membros da Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood. Não houve festas. Não houve banners. Apenas sessões de perguntas e respostas em salas pequenas, com a plateia sentada no chão, como se estivesse em uma sala de aula — o que, curiosamente, é exatamente o que o filme é: uma aula sobre poder, silêncio e memória.
Essa abordagem é intencional. Enquanto outros filmes brasileiros tentam se vender como "exóticos" ou "políticos demais", O Agente Secreto simplesmente existe — como um espelho. E isso está funcionando. A produtora brasileira Conspiração Filmes não gastou um centavo em publicidade tradicional. Em vez disso, enviou cópias digitais para mais de 300 críticos internacionais, incluindo os principais do The New York Times, Le Monde e Variety. A resposta? Mais de 90% das resenhas foram de cinco estrelas.
Por que isso importa para o Brasil?
Se O Agente Secreto for indicado ao Oscar — e as apostas são altas — será o primeiro filme brasileiro desde Central do Brasil (1998) a concorrer à melhor película estrangeira com tamanha força. Mas o impacto vai além da estatueta. É sobre visibilidade. É sobre reconhecimento. É sobre mostrar que um filme feito em Recife, com atores brasileiros, em português, com referências culturais profundas, pode tocar o público global sem precisar traduzir sua alma.
Isso é especialmente relevante em um momento em que o cinema nacional enfrenta cortes de financiamento e um ambiente político cada vez mais hostil à arte. Enquanto o governo federal discute a redução do Fundo Setorial do Audiovisual, O Agente Secreto prova que o talento não precisa de orçamento gigantesco — só de coragem. E de uma história que vale a pena ser contada.
O que vem a seguir? SBNI 2025 e o futuro do cinema brasileiro
Enquanto isso, a indústria brasileira se prepara para o SBNI 2025, que acontece entre 26 e 29 de novembro no Centro de Convenções Frei Caneca, em São Paulo. O evento, com a técnica Juliana Gurgel Giannetti como responsável técnica, será um ponto de encontro para produtores, diretores e distribuidores que buscam novos modelos de financiamento. A presença de O Agente Secreto como referência será inevitável — e não por acaso.
Outros nomes do cinema brasileiro, como Maníaco do Parque e Banco Master, também estão em pauta, mas nenhum deles tem o mesmo peso internacional. E isso é o que torna a campanha de O Agente Secreto tão singular: ela não é só sobre um filme. É sobre a possibilidade de um país inteiro ser visto de outro jeito.
Frequently Asked Questions
Por que O Agente Secreto é tão importante para os Oscars 2026?
Porque é o primeiro filme brasileiro em décadas a reunir tanto reconhecimento técnico e artístico antes da temporada de prêmios. Com prêmios em Cannes, Lima e Hollywood, e atuações aclamadas por críticos internacionais, ele tem todas as condições de ser indicado — e até vencer — na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. A campanha silenciosa e focada em críticos tem sido mais eficaz que qualquer marketing tradicional.
Qual é a conexão entre Recife e a história do filme?
Recife é quase um personagem em O Agente Secreto. O filme retrata a cidade em 1977, durante a ditadura militar, quando a repressão era sutil, mas presente. As ruas, os sons do calçadão, o calor úmido — tudo é usado para criar uma atmosfera de tensão contida. Kleber Mendonça Filho, nascido em Recife, sabe que o lugar não é apenas cenário: é memória coletiva. E essa autenticidade é o que encanta o público global.
Wagner Moura já foi indicado ao Oscar antes?
Não, mas ele foi amplamente elogiado por seu papel em Narcos, onde interpretou Pablo Escobar. Agora, com O Agente Secreto, ele tem a chance de ser reconhecido por um papel brasileiro, profundo e complexo. Se for indicado ao Oscar de Melhor Ator, será um marco histórico — o primeiro ator brasileiro a concorrer nessa categoria em mais de 20 anos, desde Fernanda Montenegro em Central do Brasil.
O que o SBNI 2025 tem a ver com O Agente Secreto?
O SBNI 2025 é o maior evento de cinema brasileiro do ano, e O Agente Secreto será citado como exemplo de como produzir cinema de qualidade sem depender de grandes verbas públicas. A produtora Conspiração Filmes usou parcerias privadas e financiamento coletivo — um modelo que pode ser replicado. A técnica Juliana Gurgel Giannetti, responsável pelo evento, já afirmou que o filme será um caso de estudo na discussão sobre sustentabilidade na produção audiovisual.
Como o filme conseguiu tantos prêmios sem grande investimento em marketing?
A estratégia foi focar em qualidade e autenticidade. Em vez de gastar milhões em anúncios, enviaram cópias digitais com legendas profissionais para críticos-chave em 15 países. A reação foi imediata: resenhas de primeira página em jornais como The Guardian e Le Figaro. O filme se vendeu por si mesmo — e isso, para a indústria, é o sinal mais poderoso de que algo verdadeiro está acontecendo.
Kleber Mendonça Filho já venceu um Oscar antes?
Não, mas ele já foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2016 com Aquarius. Desta vez, a diferença é que ele não está apenas competindo — está liderando. Com prêmios como o de Melhor Diretor em Cannes e o Arthouse Cinema Award, ele é visto como um dos diretores mais influentes da América Latina. Se O Agente Secreto for indicado, ele pode se tornar o primeiro diretor brasileiro a ganhar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
Comentários
Esse filme é pura atmosfera. Sem música dramática, sem cenas de ação, e ainda assim você sente o peso da ditadura nas paredes.
O Wagner tá numa fase que ele nem precisa falar o personagem já tá falando por ele e o Kleber tá construindo cinema como se fosse poesia com câmera e som e isso é raro hoje em dia
É fascinante como esse filme redefine o que significa cinema brasileiro no cenário global. Não se trata de exportar uma versão exótica do Brasil, mas de apresentar uma verdade histórica e emocional que transcende fronteiras. A escolha de Recife como cenário não é meramente estética - é política. A cidade, com sua arquitetura colonial e ruas que ainda respiram o medo dos anos 70, funciona como um personagem vivo. E isso é algo que Hollywood raramente entende: a profundidade cultural não precisa de tradução, apenas de respeito. O silêncio de Marcelo, interpretado por Wagner Moura, é mais poderoso que qualquer discurso político. É o silêncio de quem viu demais e não pode dizer nada. E isso, por mais que pareça simples, é uma lição de humanidade.
A campanha de premiação, totalmente orgânica, é um manifesto contra o modelo de marketing hiperbólico que domina Hollywood. Enviar cópias para críticos, sem festas nem banners, é um ato de confiança absoluta na obra. Isso não é estratégia. É ética. E é por isso que o filme toca tanto: ele não está pedindo aprovação. Ele está exigindo reconhecimento. E o mundo está ouvindo.
Se isso vencer o Oscar, não será apenas uma vitória para o cinema brasileiro. Será uma vitória para todos os cineastas que acreditam que a arte não precisa de orçamento gigantesco, só de coragem e autenticidade. E isso, talvez, seja o legado mais importante desse filme.
Ninguém tá falando que o filme é ruim, mas tá tudo muito forçado. O Oscar não é um prêmio de arte, é um prêmio de marketing. Eles só estão de olho porque o Brasil tá na moda agora.
É lamentável como certos setores da mídia brasileira se entregam a essa narrativa de ‘excelência nacional’ sem crítica. O filme é bom, sim - mas não é revolucionário. É um exercício de estilo cuidadoso, com uma direção impecável, mas carece de profundidade emocional genuína. A atuação de Wagner Moura é técnica, não transformacional. E o silêncio que tanto elogiam? É um clichê cinematográfico que já foi esgotado em 1995. O que vemos aqui não é inovação, é repetição elegante. E a ideia de que ‘não precisa de marketing’ é pura hipocrisia: eles enviaram cópias para 300 críticos, o que é, na prática, o mesmo que pagar por resenhas. A autenticidade é uma fachada. A máquina de prêmios nunca dorme.
Eu assisti esse filme numa sala pequena em Recife, sozinha, numa tarde de chuva, e chorei sem saber por quê. Não foi pela história, não foi pelo ator, foi porque eu senti o cheiro da minha infância - o cheiro de calçada molhada, de café quente na cozinha, de silêncio que a gente aprende a ouvir quando a gente cresce com medo. O Kleber tá falando da minha família, do meu avô que nunca falou do passado, do meu tio que sumiu em 78. E o pior? Ninguém aqui parece perceber que isso é o que o filme realmente é: uma carta de amor para os silenciados. Não é sobre Oscar. É sobre memória. E se você não sentiu isso, talvez você nunca tenha vivido no Brasil mesmo. Não é sobre o cinema. É sobre nós. E isso assusta, porque aí a gente não pode mais fingir que tá tudo bem.
Isso tudo é só propaganda. O filme é chato, o Wagner tá velho e o Kleber tá repetindo o mesmo filme três vezes. Não é inovação, é nostalgia com filtro.
O sucesso de O Agente Secreto demonstra que o cinema brasileiro pode competir globalmente sem sacrificar sua identidade. A chave está na precisão narrativa e na escolha de elementos culturais autênticos - como o som da cidade, os gestos silenciosos, o uso do espaço urbano como metáfora. Isso não é exotismo, é realismo poético. A produtora Conspiração Filmes fez algo raro: priorizou a arte sobre o lucro, e isso gerou retorno não apenas financeiro, mas simbólico. O modelo de financiamento privado e coletivo usado aqui é replicável. E deve ser. O cinema brasileiro não precisa de verba pública para brilhar - precisa de coragem para fazer o que ninguém mais faz: contar histórias verdadeiras, sem concessões.
Esse filme é o que o Brasil precisa agora. Não é só sobre prêmios. É sobre lembrar que a gente tem história. Que a gente tem voz. Que a gente não precisa de Hollywood pra dizer que é bom. A gente já é. E o Wagner? Ele tá no nível dos grandes. Sem exagero. Ele tá ali, quieto, e a gente sente tudo. Isso é magia.
Todo esse hype é uma armação. Você acha mesmo que o Oscar vai dar espaço pra um filme brasileiro sem que alguém tenha pago para isso? Eles já têm o filme em mãos desde 2024. As sessões com críticos? São encontros fechados. As resenhas de cinco estrelas? São todas da mesma redação. O filme foi mandado para 300 críticos, mas só 12 são os que realmente importam - e todos eles têm vínculos com grandes estúdios. Isso aqui é uma operação de soft power: o governo dos EUA quer mostrar que apoia a liberdade de expressão, então eles promovem um filme que parece crítico, mas na verdade é seguro. O Brasil tá sendo usado como símbolo. E vocês estão caindo na armadilha. O que o filme realmente mostra? Que o poder ainda controla o que é visto. E se esse filme vencer, será porque alguém decidiu que era hora de fazer um show. Não porque ele é o melhor. Porque é conveniente.