Notícias do Brasil em Destaque

Shakhtar Donetsk e o vínculo profundo com o futebol brasileiro

Shakhtar Donetsk e o vínculo profundo com o futebol brasileiro
Jonatas Santana 31/03/26

Quando Shakhtar Donetsk, o gigante ucraniano do futebol, pisou no solo brasileiro em janeiro de 2015, ninguém imaginava que aquela turnê marcaria o último suspiro de uma era antes da tempestade. O clube desembarcou em Rio de Janeiro para uma série de cinco amistosos, uma demonstração de força que contrastava dramaticamente com a realidade militar que aguardava seus jogadores de volta à Europa.

O planejamento era ambicioso. A equipe deveria passar por Salvador, Brasília e Belo Horizonte também. O objetivo? Reforçar laços e vender ingressos. Mas havia um detalhe estranho: vários dos próprios craques brasileiros que faziam parte do elenco deixaram o país sem os titulares nacionais. Por quê? Estavam voltando de uma zona de guerra. A narrativa do Shakhtar não é apenas sobre troféus ou táticas; é sobre sobrevivência.

A Ponte Aérea de Talentos Brasileiros

Vamos ser honestos: a relação entre o clube e o Brasil não é casual. É estrutural. Desde 2002, Dentinho, jogador brasileiro, foi contratado em 2011, fechando um ciclo histórico de importações. Até aquele momento, o clube já havia trazido uma verdadeira legião sul-americana. A lógica era simples: investir em talento brasileiro gerava lucro e títulos. E funcionava.

A conta matemática assusta qualquer torcedor que olhe para os números friamente. Entre 2002 e 2015, Shakhtar Donetsk assina contrato com 47 atletas das confederações brasileiras. Somados, esses jogadores marcaram mais de 1.000 gols pela camisa do clube. Isso não é apenas estatística; é um fluxo financeiro vital. As vendas desses atletas injetaram mais de 350 milhões de euros na caixa da instituição. Sem esse dinheiro, é provável que o clube tivesse sucumbido aos primeiros choques de guerra em 2014.

Luz Adriano permanece como ícone desse projeto. Entre 2007 e 2015, ele foi o artilheiro absoluto com 128 gols. Sua passagem mostra como o clube transformava nomes desconhecidos no Brasil em máquinas de gol na Europa. Quando pensam no Shakhtar, pensam no Luiz Adriano. E no Brasil, lembram da ponte entre o continente europeu e a nossa formação técnica.

O Exílio e a Sobrevivência

A situação mudou drasticamente quando o conflito armamento se intensificou na região de Donetsk. Em 2014, forças militares cercaram a cidade onde o clube estava sediado. Não houve muito debate sobre opções lógicas. Os oficiais administrativos baseados em Kiev retornavam apenas em casos extremos. Logo, o centro de operações precisava sair longe da zona de combate.

A transferência inicial deslocou a sede administrativa cerca de 700 quilômetros da cidade natal, concentrando tudo em Kiev. Foi aí que a logística do "exílio" se tornou clara. Posteriormente, o cenário forçou novas mudanças. Alugaram o estádio em Lviv, localizado bem no oeste, próximo à fronteira polonesa. Cerca de 500 quilômetros a oeste de Kiev, essa localidade oferecia relativa segurança em tempos de caos.

No meio dessa turbulência, o Hotel Ópera, situado defronte à Ópera Estatal em Kiev, serviu de cabeça-guia. Imagine uma mansão neoclássica elegante abrigando negócios de alto nível enquanto lá fora o mundo desmoronava. Camaradas educados serviram pasta para empresários que tentavam manter o clube flutuante financeiramente. Houve sempre 11 latino-americanos no elenco durante esse período crítico, sendo os brasileiros a maioria absoluta. Essa dependência cultural salvou a marca.

A Evacuação de 2022

Março de 2022 marcou um ponto de inflexção brutal. Com a escalada militar, não era possível ignorar a vida pessoal. Pedrinho e Maycon, dois dos ativos mais valiosos do time, chegaram no Brasil no dia 1º de março. Eles fugiram da violência crescente que cobria a Ucrânia. Outros profissionais e suas famílias também saíram na mesma manhã, pousando diretamente no solo brasileiro.

Isso demonstra como a rede de contatos montada naquela turnê de 2015 ainda estava ativa oito anos depois. Quando a porta principal trancou, os corredores de emergência abertos pelo futebol abriram caminho. O Shakhtar manteve o foco em preservar o elenco, mas a prioridade mudou: salvar pessoas antes de salvar times.

O Que Esperar no Futuro

Agora, resta saber se o modelo será replicável. Com a tensão geopolítica afetando toda a região sudeste da Europa, clubes dependentes de transferências internacionais podem ver sua receita oscilar. O vínculo emocional com o Brasil, contudo, parece imune a crises políticas. O clube ainda mantém a estrutura, mas opera sob regras de emergência permanentes.

Frequently Asked Questions

Quais foram os principais destinos da turnê de 2015?

O clube visitou quatro cidades principais além do início em Rio de Janeiro. A lista inclui Salvador, Brasília e Belo Horizonte. Foram programados cinco jogos amistosos no total durante o mês de janeiro.

Como a guerra afetou a operação do Shakhtar?

A invasão forçou o deslocamento da sede administrativo de Donetsk para Kiev e posteriormente Lviv. A equipe passou a operar em bases temporárias para evitar conflitos diretos, mantendo o hotel ópera como centro de comando em Kiev.

Qual o valor financeiro gerado pelos atletas brasileiros?

As transferões de atletas brasileiros geraram mais de 350 milhões de euros de receita para o clube desde 2002. Esse fluxo financeiro foi fundamental para financiar a infraestrutura durante os períodos de instabilidade regional.

Quais jogadores brasileiros fugiram da Ucrânia em 2022?

Em março de 2022, Pedrinho e Maycon viajaram especificamente para escapar da violência. Eles chegaram ao Brasil junto com familiares e outros funcionários do clube na manhã de 1º de março.

Sobre o Autor